2017.

Queria ser criança em 2017, entrar no Instagram procurar uma hashtag e ver que existem milhares de pessoas iguais a mim! 

Queria ser criança em 2017, participar das paralimpíadas escolares, praticar esportes adaptados e encontrar o meu preferido.

Queria ser criança na era da inclusão, ver outras crianças com deficiência na sala de aula, com materiais adaptados e uma mediadora da escola para ajudar.

Queria ser criança em 2017, ter transporte gratuito, ser respeitada nas ruas, uma fila preferencial e ver a praia acessível!

Queria ser criança em 2017, poder escolher um atleta paralímpico para me inspirar e me sentir representada no país.

Queria ser criança em 2017, ter amigos com deficiência física, auditiva, visual, intelectual e ver o quanto cada um luta pra ser feliz!

Queria ser criança em 2017, fazer parte de um grupo com várias crianças iguais a mim, receber um dispositivo 3D e mostrar pra todo mundo a importância da tecnologia na vida das pessoas com deficiência.

Mas sabe, não queria ouvir o termo “crianças especiais” só queria ser igual a todas as outras crianças. 

Também queria reabilitação, fisioterapia, terapia e esportes gratuitos.

Queria ver mães aceitando e amando seus filhos com deficiência. Quando a gente cresce e descobre que causou tristeza e sofrimento na família, isso dói! “Não queria ter dado tanto trabalho assim.” Gera uma culpa, sabe? Uma culpa que não é de ninguém! 

Mas quando a gente descobre a luta pelos direitos, pela igualdade e inclusão social, aí a gente sente que faz parte de algo muito maior. A gente sente que é capaz de transformar o mundo com o nosso jeito de ser!

Queria ser criança em 2017, porque muita coisa mudou pra melhor, é bom saber que os pequeninos de hoje não estão sozinhos! Há um mundo de amor e inclusão, aqui e agora. É só procurar! 

Com carinho,

Fee

Anúncios

Vida nova

Posso até estar enganada, mas sinto um novo momento avançando em nossa sociedade, pode até ser uma sensação leve e passageira, mas que seja uma verdadeira transformação social.

É possível analisar essa sensação nova através da Lei Brasileira de Inclusão, novas ideias, novas leis, tudo um pouco distante, ainda assim, um avanço. Depois veio a visibilidade da Paralimpíada Rio 2016 e o sucesso dos nossos atletas.

Começamos um novo ano com a resiliência dos sobreviventes do acidente da nossa querida Chapecoense e o desejo do Follmann seguir a vida como atleta paralímpico, nada como o esporte para nos motivar a enfrentar a vida com alegria e novos desafios.

O primeiro mês do ano ainda não terminou e já temos diariamente em rede nacional a Marinalva de Almeida, atleta paralímpica da vela nos representando muito bem ao ser a primeira pessoa com deficiência a participar do Big Brother brasil, programa de entretenimento da TV Globo.

As dificuldades podem até continuar, mas não dá pra negar, conseguimos alcançar certa visibilidade enquanto pessoas com deficiência. Nosso grupo minoritário tem sido visto, esse é o primeiro passo para o reconhecimento.

Espero que esse legado dos jogos paralímpicos seja concreto, maior visibilidade, novas oportunidades para crianças e jovens, e mais naturalidade ao viver a vida. É preciso ter orgulho em ser do jeito que você é independente de qualquer coisa, positividade SEMPRE!

A meta desse ano é lançar a Adaptive Sports Brasil e conhecer o Centro de Treinamento Paralímpico em São Paulo, o que não vai faltar é competição esportiva pra gente acompanhar e torcer MUITO pelo Time Brasil!

Um excelente ano para todos nós!

Com carinho,

Fee

Querida mamãe

Sabe o que as crianças escutam diariamente?

– Não pode comer besteira, não pode andar descalço, não pode bagunçar, não pode sujar, não pode pintar, não pode brincar de massinha, não joga o lego no chão, não tira a roupa da boneca, não pode correr, não joga bola em casa, não tá na hora de brincar, você não pode fazer isso eu já falei mil vezes e não vou repetir!

– Vai arrumar a mochila, tira a toalha de cima da cama, leva o prato pra cozinha, cuidado pra não derrubar o suco no sofá, não vai levantar enquanto não acabar de comer, tira o pé sujo de cima da cama, já tomou banho hoje? Fez o dever de casa? Separou o uniforme? Vai escovar o dente! Eu não acredito que você não está pronto ainda! Não vai mexer no tablet com essa mão suja! Larga esse video-game, vou te deixar de castigo sem o celular!

Sabe o que elas precisam ouvir?

– Vamos brincar? Que roupa você quer vestir hoje? Qual desenho nós vamos assistir? Filho, você tá bem? Me fala sobre os seus amigos. Como foi o seu dia na escola? Você está precisando de alguma coisa? Vamos inventar uma brincadeira nova? Vamos aprender uma música nova? Qual esporte você gostaria de fazer? Vamos jogar bola? Que tal desenhar a nossa família em um papel? VAMOS FAZER UMA CABANA! Vamos no parque hoje? Quais são os animas que você mais gosta? Vamos ler um livro antes de dormir?

– Pra ganhar um brinquedo precisamos doar outro, vamos ajudar a guardar as compras, hoje você vai comer sozinho, vamos aprender a amarrar o sapato, vamos visitar a vovó e o vovô, vamos escrever uma carta para o futuro? Vamos pegar sol, hoje é o dia da piscina, vamos almoçar na varanda, que tal construir um castelo de lego, vamos brincar com tinta! 

E a moral da história?

– Eu preciso de você, você precisa de mim e juntos nós vamos construir as melhores lembranças das nossas vidas!

Mas, mãe promete que você vai me dar espaço, vai deixar eu brincar com os meus amigos, dormir na casa deles quando eu crescer, promete que eu vou poder escolher o meu esporte, que eu vou poder decidir sobre a minha vida e que você vai respeitar quando eu não for igual a você?

– Filho, você consegue! Tenta mais uma vez, eu acredito em você! Tudo bem, não fica triste. Deixa pra lá! Vai ficar tudo bem! Eu confio em você! Pode ir sozinho, vou estar aqui quando você precisar. Pode brincar mais um pouco! Não tem problema sujar, a gente limpa depois!

– Caiu? Levanta! Errou? Que bom! 

– Filho, eu amo você!

Mãe, eu te amo! Mas você se preocupa demais! Não precisa, vou ficar bem!

– Eu vou me preocupar até o último dia da minha vida, filho. Isso é ser mãe! 

Curitiba

Em 2016, rolou o pré-lançamento do livro Tudo no Lugar no I Encontro Nacional de Agenesias, Familiares e Pessoas com Deficiência promovido pela Associação Dar a Mão. O evento foi um marco histórico na vida de muitas famílias e Instituições que lutam pelos direitos e pela inclusão de pessoas com deficiência na sociedade.

A melhor parte do encontro foi ver a integração das crianças e o sentimento de pertença a um grupo com os mesmos desafios e histórias compartilhadas. Os momentos de lazer foram repletos de sorrisos, alegrias e novas amizades.

Para sempre lembraremos do pequenino João Emanuel, que conquistou o carinho de todos no encontro, a sua presença nos trouxe alegria e uma nova inspiração por toda a vida, que do Céu ele continue sorrindo com os olhos. Um forte abraço para sua mamãe Fernanda Souza e para toda a família do nosso eterno anjo.

Depois de palestras, depoimentos e práticas o encontro terminou com a emocionante história de vida da Daniele Amaral que mora em Arapuã ao norte do Paraná. Deixo aqui o convite pra conhecer o surf adaptado no Rio de Janeiro, topa Dani? É claro que o convite é aberto, esse é o crowd que todo mundo quer ver, a galera com deficiência pegando altas ondas e curtindo um dia na praia!

Vem comigo!

Abraços,

Fee

Rio 2016

As olimpíadas chegaram no Rio, veio a crise, caos no governo, milhões de turistas, ingressos altíssimos, piscina verde, comidas acabando no parque olímpico, seleção masculina de futebol com direito a bronca do Galvão Bueno, seleção feminina dando o exemplo, recordes, decepções, e tudo que o esporte pode nos proporcionar.

E aí veio a Paralimpíada, depois de uma vida de lutas eu e a mamãe embarcamos em uma jornada louca para assistir diversas modalidades e viver intensamente aqueles dias. A cidade estava repleta de pessoas com deficiência, em questão de dias os ingressos começaram a se esgotar, as famílias lotaram o parque olímpico, as arenas estavam cheias, e o calor de 40° no Rio não era maior que o calor do povo enaltecendo os nossos atletas.

Foram dias de inclusão, inspiração, exemplos e um monte de história linda pra se ouvir e repetir pelos cantos do Brasil. Eu passei a vida inteira lutando para ser vista e reconhecida, através do esporte abracei a deficiência e me joguei no mundo. Naqueles dias eu me senti em casa, me vi nos jornais, no mercado as pessoas só falavam disso, o jornaleiro disse que lembrou de mim assistindo os jogos, as crianças olhavam encantadas, no metro as pessoas cediam o lugar, todo mundo me olhava como se eu estivesse dentro da quadra representando o Brasil.

Essa postura inclusiva era uma novidade e deveria durar por todos os dias, esse clima foi bem vívido no Rio, algumas cidades mal assistiram os jogos na televisão, na minha casa o SPORTV ficou ligado durante todos os dias da competição, eu estive por vezes no atletismo, fui ao basquete em cadeira de rodas, bocha, goalball, tiro com arco, bike, eram tantas modalidades, alguns amigos representando o Brasil e aquele clima absurdamente incrível.

Estive falando sobre os desafios e a vida dos atletas em uma entrevista sobre o legado dos jogos, você pode acessar aqui, muitas escolas estiveram nas arenas, muitas famílias, a mídia não divulgou tanto, mas alguns canais como a TVBrasil e o SPORTV deram uma verdadeira aula de inclusão.

Eu continuo lutando todos os dias, e um novo projeto pessoal vem aí pra divulgar os esportes adaptados e impulsionar a relação da sociedade civil com os atletas. As pessoas com deficiência precisam de inspiração pra seguir a caminhada, e nada melhor do que os atletas que treinam diariamente para alcançar resultados positivos.

Esses jogos vão ficar marcados pra sempre, fica aqui um abraço especial ao Daniel Martins (Atletismo), Thomaz Matera (Natação), Francisco Barbosa (Tiro com Arco), Wanderson Silva de Oliveira (Futebol de 7) e ao Lucas Araújo (Bocha) por toda dedicação ao esporte.

E você, conhece os atletas do Time Brasil? Segue a galera!

Com carinho,

Fee

Oceano

Quando eu estava na escola uma grande amiga me falou “fee, você nasceu para brilhar” naquele tempo a minha autoestima já batia no céu e voltava, resolvi acreditar nela. Dali em diante tanta coisa aconteceu e só tenho motivos para me orgulhar, terminada a faculdade me joguei em um trabalho incrível e ao mesmo tempo desgastante, me vi trabalhando 12 horas por dia alternando entre uma escola e os atendimentos no consultório. O tempo foi escasso para a família, para os amigos e muitas vezes eu preferia o descanso do que as ondas do mar. Por dois anos me vi educando crianças e jovens, diariamente lidava com o questionamento dos pequeninos sobre a “não mão” apelido que surgiu há um bom tempo atrás, acho que todo mundo que tem uma deficiência tem um jeito peculiar de fazer uma referência, certo? Pois bem, o curioso é que as crianças sempre reagiram muito bem, a história que eu ouvi quando menina se transformou e virou um grande exemplo, a maioria das crianças demonstrava afeto e uma curiosidade arrebatadora. Em pouco tempo eu me transformei na tia da mãozinha e diariamente diversas crianças entravam na minha sala só para fazer um carinho, dar um abraço ou conversar. Ao longo desse tempo trabalhando com crianças e nenês eu percebi o quanto o diálogo mudou, se antigamente mal se ouvia dizer sobre deficiência hoje em dia as crianças fazem referência e aceitam com muita naturalidade. O estranhamento inicial vai depender da sua reação, se a sua história for contada com negatividade, as pessoas vão reagir assim, e se for com otimismo e esperança, todo mundo fica feliz. Esse segredo eu aprendi há tempos, no play do meu prédio e por muitos anos repeti esse comportamento. Resolvi me afastar daquela rotina louca de trabalho e mergulhar nos meus projetos pessoais que nunca saíram da gaveta. Atualmente eu trabalho oferecendo um suporte as pessoas com deficiência, as famílias e a todos que estejam passando por um momento difícil. Considerando o cenário político e econômico atual não é difícil encontrar alguém precisando de uma palavra acolhedora. Se um dia eu sonhei em ser atleta paralímpica, esse sonho se realizou com a conquista do primeiro campeonato nacional de surf adaptado do país; se um dia eu sonhei em ser terapeuta e transformar a vida de inúmeras pessoas, esse sonho vem se realizando há cerca de três anos, mas tem um sonho que parece ser infinito, fazer do mundo um lugar melhor e mais feliz. Transformar dor em luta é algo que a gente nasce enfrentando, tenho certeza absoluta que toda a minha firmeza veio da minha deficiência, que toda a coragem que sinto em lutar por um mundo melhor veio dos olhares na rua, que todo amor que transbordo veio da minha família e de amigos incríveis. Eu tenho certeza que a minha deficiência é só uma parte de quem eu sou. Através de uma escolha consciente eu resolvi tirar o termo “superação” da minha fala, mas que bobagem, eu prefiro enfrentar com alegria, determinação e todos os valores que eu cultivei ao longo desses 26 anos.

Eu cansei de querer brilhar como o sol. Hoje eu prefiro ser o oceano, fluído, intenso, com séries grandes e a calmaria necessária para restaurar a homeostase do corpo e da mente.

Sabe qual é a melhor parte de olhar pra trás? É ver que hoje nós não estamos mais sozinhos, não enfrentamos a vida desprovidos de informação e com a angústia existencial do vazio. Existem diversas famílias compartilhando sentimentos e muitos pequeninos vão crescer sabendo que existem muitas pessoas como eles.

Mãe, você não precisa mais buscar ajuda em outro continente! Nossa rede de apoio tá aqui, na palma da nossa mão e daqui a pouquinho o encontro nacional vai sair!

“O jogo virou, não é mesmo?”

Com carinho,

Fee

E agora?

Durante muito tempo eu questionei a minha deficiência, enfrentei muitos desafios, me senti sozinha, me senti amada, me senti triste e me senti forte, são tantos sentimentos, percepções, aprendizados e mudanças.

Quando eu era criança foi fundamental pensar que todas as crianças eram diferentes e cada uma era única no mundo; durante a adolescência eu descobri o que era ser deficiente e assumi a responsabilidade, as lutas e bandeiras dessa causa; através do esporte aprendi a me dedicar e enfrentar os desafios que a vida me traz; durante a juventude entendi a diferença entre preconceito e discriminação: o preconceito é a falta de conhecimento, um juízo preconcebido, a discriminação leva a exclusão social e não deve existir em nenhuma circunstância, sendo essa social, racial, política, religiosa, de gênero, idade ou de pessoas com deficiência; aprendi a ser solidária, otimista, honesta e justa; através da minha deficiência criei barreiras, defesas, e fiz o que precisava ser feito para me sentir bem e feliz, me fortaleci e fui obrigada a crescer muito cedo.

Eu sempre pensei que deveria me esforçar mais que os outros, eu me culpava por ter dado tanto trabalho aos meus pais que fizeram de tudo para fazer a coisa certa, eu tive raiva e ódio de uma sociedade injusta e discriminatória, eu fui egoísta quando pensava que a culpa da minha deficiência era dos meus pais, eu fui fraca ao me afastar da espiritualidade e deixar de acreditar no bem em alguns momentos, e acima de todos esses sentimentos ruins que outrora eu senti, hoje eu sei que está tudo bem, que não existe fórmula para lidar com pessoas com deficiência, que você pode se sentir mal, triste, inseguro, ter raiva, rancor, e se sentir feliz, leve, forte, capaz, seguro, e qualquer sentimento, atitude ou pensamento que possa surgir, não há problema em se sentir assim. O que não podemos fazer é deixar de pedir ajuda por orgulho, e deixar de estender a mão a quem não compreender as dificuldades que uma pessoa com deficiência enfrenta e traz a uma família.

Tudo o que aconteceu me levou aonde eu queria chegar, hoje em dia sou Psicóloga Clínica, tenho especialização em Psicologia Esportiva e trabalho com Pessoas com Deficiência. Eu tenho dias bons e ruins, tenho uma família que me ama, tenho muitos amigos e desejo trabalhar e ajudar muitas pessoas ao longo da minha vida.

Com carinho,

Fee

Juventude

Ao entrar na faculdade eu não precisava me esconder, já me sentia segura, conseguia me relacionar sem medo e sem precisar usar casaco. Eu gostava muito de uma disciplina de Neurociências, no laboratório era importante manusear os materiais, eu precisava usar luvas e amarrava os dedos, colocava uma fita adesiva e me fascinava com o conteúdo, me encantei e resolvi fazer a prova para ser monitora. Novamente enfrentava um desafio, me questionei, tive dúvidas se seria capaz de realizar tal tarefa, algumas amigas falaram que eu deveria me esforçar e tentar fazer a prova, a minha deficiência jamais poderia me impedir de atingir qualquer objetivo; me tornei monitora e alguns meses depois monitora-chefe, dei aula para muitos alunos, novamente não tive medo de me expor e realizei uma das tarefas que me fez ter mais orgulho durante a faculdade. Além de ser monitora fiz estágio no Núcleo de Apoio e Inclusão de Pessoas com Deficiência da faculdade, me envolvi no Movimento Estudantil, participei do Centro Acadêmico, do Diretório Central Estudantil, fui goleira na equipe de Futsal da Universidade e fui oradora de turma na minha formatura. De todos os aprendizados na Universidade o maior de todos sempre foi perceber que quando a gente se dedica, as coisas acontecem.

Nesse período em que cursei a faculdade conheci a ONG ADAPTSURF, que tem como objetivo Promover a inclusão e integração social das pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida, garantindo igualdade de oportunidades e acesso ao lazer, esporte e cultura, através do contato direto com a Natureza. Finalmente, eu passei a conviver com outras pessoas com deficiência e percebi que eu não estava sozinha. Conheci pessoas incríveis com história de vidas interessantes e aprendi com cada pessoa que passou por lá, aprendi a surfar e até hoje eu lembro da sensação da primeira onda, com os dois pés firmes na prancha eu me sentia no controle da minha vida, ali eu deixava pra traz a dor de cada discriminação. Os voluntários observavam todas as possibilidades e potencialidades de cada pessoa com deficiência, as pessoas transformavam a sua personalidade, sua visão de mundo, e seu modo de encarar a vida quando começavam a surfar, eu comecei a perceber a influência daquele esporte no comportamento de cada um, eu já estava fazendo estágio com Psicologia Esportiva e comecei a fazer pesquisas com o Surf Adaptado, fiz um estágio que me levou a um estudo de dois anos e resultou em uma monografia. Além de surfar e mudar a minha vida e a vida da minha família que passou a acompanhar as minhas atividades eu comecei a mudar a vida dos alunos, assim que eu me formei me tornei Psicóloga Esportiva da ONG.

Com carinho,

Fee

Desafios

O apoio que eu tive da minha família e de todos os meus amigos foi muito importante, a cada lágrima derramada eu sempre tive um porto seguro me dizendo para não desistir, para seguir sem medo e sem vergonha. A dor de cada discriminação me fez crescer, quando alguma coisa caia da minha mão eu chorava e me sentia triste, sempre que isso acontecia a minha família me fazia repetir um mantra “eu quero, eu posso e eu consigo”.

Eu chorei muito, sofri muito e me questionei muito para entender a minha existência, esse sempre foi o meu maior desafio, eu ficava exausta de tanto refletir sobre discriminação. Eu reclamava, não compreendia, gritava com meus pais e chorava ao ver toda e qualquer injustiça, sentia raiva e sofri bastante.

Por muitas vezes eu chorei sozinha em casa, me sentia insegura e tinha medo do futuro. Fui obrigada a lidar com situações estressoras, as atitudes em relação a minha deficiência me incomodavam bastante e eu assumi a bandeira de lutar contra a discriminação e ajudar outras pessoas com deficiência, o problema é que eu não conhecia ninguém igual a mim.

Todos os desafios e limitações eram encarados com muita determinação, eu sempre buscava o meu melhor, quando as pessoas ofereciam ajuda eu tentava até o meu limite, sempre forcei a barra e isso me fez crescer, aprendi a respeitar as minhas dificuldades ao invés de não tentar por medo e insegurança.

Ao longo da minha vida eu aprendi a fazer maquiagem, pintar a unha, lavar a louça, joguei futsal, handball, vôlei, tênis, natação, surf, fiz aulas de artes, aprendi a tocar pandeiro, tentei até fazer tênis de mesa paraolímpico mas escolhi me dedicar a faculdade e completar meus estudos.

Com carinho,

Fee

O Esporte como ferramenta de inclusão

Aos 12 anos eu mudei de colégio, durante o verão carioca eu frequentava as aulas de casaco para esconder a minha deficiência, não fazia isso com consciência, o medo de ser aceita fez com que eu me escondesse e me fechasse para novas amizades. Os olhares incomodavam muito e eu demorei a me acostumar com a ideia daquele ambiente desconhecido, qualquer mudança é difícil, ainda mais para uma adolescente com deficiência. Todo esse panorama mudou quando as aulas de Educação Física iniciaram, eu passei a praticar atividades físicas e essa disciplina sempre foi a minha favorita, eu estava mais preocupada em fazer uma cesta ou um gol do que a minha deficiência. O esporte mudou a minha vida completamente, eu me afastei da tristeza e da solidão, deixei de ter medo da exposição e aprendi a lutar e não desistir das dificuldades.

No colégio todos foram muito acolhedores, os professores, alunos e funcionários, não demorou muito para que eu me sentisse bem e confortável, a vergonha de ser a “menina nova que não tem uma das mãos” não mais existia, o diferencial era fora dele. Nas ruas a dificuldade era lidar com a discriminação, algo simples como ir à padaria se transformava em uma situação difícil pois eu via nitidamente as pessoas se esquivando para não se aproximarem, os olhares voltados a minha mão e os comentários que sempre me faziam sofrer.

Em 2006, o tema das olimpíadas escolares que seguia a campanha da fraternidade era sobre deficiência e naquele ano eu tive a oportunidade de lutar pelo que eu acreditava ser justo, a luta envolvia os meus direitos e de todas as outras pessoas com deficiência. Resolvi participar de todas as atividades possíveis, além das esportivas a olimpíada era cultural, sendo assim participei de uma grande abertura, apresentações de dança e uma peça de teatro. Essa olimpíada representou a mudança que fez a diferença na minha vida, eu não tive medo de me expor, de dizer quem eu era e de ter orgulho da minha deficiência. Naquele ano eu consegui mudar o olhar que muitas pessoas tinham em relação a deficiência, a minha turma me acolheu e me fez protagonista daquela história e principalmente da história da minha vida, eu me senti amada e não tive medo, eu não me senti mal em nenhum momento e eu consegui ver que a maior torcida e a melhor plateia são das pessoas que te amam pelo que você é.

A minha entrega foi tamanha em todos os esportes que eu terminei aquela semana no hospital com o ligamento do joelho rompido, no ano seguinte passei por uma cirurgia para corrigir o dano e a sensação era de dever cumprido, quando eu estava passando pelo processo de reabilitação na fisioterapia, lembrava do ginásio me aplaudindo de pé, dos meus amigos me abraçando, da emoção no teatro, dos desafios e vitórias da competição e de um troféu de destaque em uma modalidade esportiva. Toda dor que eu sentia recuperando o meu físico em questão de segundos se transformava na conclusão da melhor olimpíada que eu poderia ter, eu fiz o possível para voltar as quadras e devolver todo o apoio que recebi da minha turma.

Eu frequentava a fisioterapia três vezes por semana com duração de três horas com intensos exercícios, chorava de dor e chegava em casa querendo o colo da minha mãe, não foi fácil, mas foi uma etapa necessária no meu aprendizado, ali eu compreendi o poder da mente humana. Eu deixei as minhas emoções dominarem cada célula do meu corpo e a sensação de transcendência foi incrível, naquele momento eu vi que eu era capaz de ser e fazer tudo que eu desejasse, aprendi a enxergar muito além do que os olhos podem ver.

Com carinho,

Fee