Oceano

Quando eu estava na escola uma grande amiga me falou “fee, você nasceu para brilhar” naquele tempo a minha autoestima já batia no céu e voltava, resolvi acreditar nela. Dali em diante tanta coisa aconteceu e só tenho motivos para me orgulhar, terminada a faculdade me joguei em um trabalho incrível e ao mesmo tempo desgastante, me vi trabalhando 12 horas por dia alternando entre uma escola e os atendimentos no consultório. O tempo foi escasso para a família, para os amigos e muitas vezes eu preferia o descanso do que as ondas do mar. Por dois anos me vi educando crianças e jovens, diariamente lidava com o questionamento dos pequeninos sobre a “não mão” apelido que surgiu há um bom tempo atrás, acho que todo mundo que tem uma deficiência tem um jeito peculiar de fazer uma referência, certo? Pois bem, o curioso é que as crianças sempre reagiram muito bem, a história que eu ouvi quando menina se transformou e virou um grande exemplo, a maioria das crianças demonstrava afeto e uma curiosidade arrebatadora. Em pouco tempo eu me transformei na tia da mãozinha e diariamente diversas crianças entravam na minha sala só para fazer um carinho, dar um abraço ou conversar. Ao longo desse tempo trabalhando com crianças e nenês eu percebi o quanto o diálogo mudou, se antigamente mal se ouvia dizer sobre deficiência hoje em dia as crianças fazem referência e aceitam com muita naturalidade. O estranhamento inicial vai depender da sua reação, se a sua história for contada com negatividade, as pessoas vão reagir assim, e se for com otimismo e esperança, todo mundo fica feliz. Esse segredo eu aprendi há tempos, no play do meu prédio e por muitos anos repeti esse comportamento. Resolvi me afastar daquela rotina louca de trabalho e mergulhar nos meus projetos pessoais que nunca saíram da gaveta. Atualmente eu trabalho oferecendo um suporte as pessoas com deficiência, as famílias e a todos que estejam passando por um momento difícil. Considerando o cenário político e econômico atual não é difícil encontrar alguém precisando de uma palavra acolhedora. Se um dia eu sonhei em ser atleta paralímpica, esse sonho se realizou com a conquista do primeiro campeonato nacional de surf adaptado do país; se um dia eu sonhei em ser terapeuta e transformar a vida de inúmeras pessoas, esse sonho vem se realizando há cerca de três anos, mas tem um sonho que parece ser infinito, fazer do mundo um lugar melhor e mais feliz. Transformar dor em luta é algo que a gente nasce enfrentando, tenho certeza absoluta que toda a minha firmeza veio da minha deficiência, que toda a coragem que sinto em lutar por um mundo melhor veio dos olhares na rua, que todo amor que transbordo veio da minha família e de amigos incríveis. Eu tenho certeza que a minha deficiência é só uma parte de quem eu sou. Através de uma escolha consciente eu resolvi tirar o termo “superação” da minha fala, mas que bobagem, eu prefiro enfrentar com alegria, determinação e todos os valores que eu cultivei ao longo desses 26 anos.

Eu cansei de querer brilhar como o sol. Hoje eu prefiro ser o oceano, fluído, intenso, com séries grandes e a calmaria necessária para restaurar a homeostase do corpo e da mente.

Sabe qual é a melhor parte de olhar pra trás? É ver que hoje nós não estamos mais sozinhos, não enfrentamos a vida desprovidos de informação e com a angústia existencial do vazio. Existem diversas famílias compartilhando sentimentos e muitos pequeninos vão crescer sabendo que existem muitas pessoas como eles.

Mãe, você não precisa mais buscar ajuda em outro continente! Nossa rede de apoio tá aqui, na palma da nossa mão e daqui a pouquinho o encontro nacional vai sair!

“O jogo virou, não é mesmo?”

Com carinho,

Fee

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