O Esporte como ferramenta de inclusão

Aos 12 anos eu mudei de colégio, durante o verão carioca eu frequentava as aulas de casaco para esconder a minha deficiência, não fazia isso com consciência, o medo de ser aceita fez com que eu me escondesse e me fechasse para novas amizades. Os olhares incomodavam muito e eu demorei a me acostumar com a ideia daquele ambiente desconhecido, qualquer mudança é difícil, ainda mais para uma adolescente com deficiência. Todo esse panorama mudou quando as aulas de Educação Física iniciaram, eu passei a praticar atividades físicas e essa disciplina sempre foi a minha favorita, eu estava mais preocupada em fazer uma cesta ou um gol do que a minha deficiência. O esporte mudou a minha vida completamente, eu me afastei da tristeza e da solidão, deixei de ter medo da exposição e aprendi a lutar e não desistir das dificuldades.

No colégio todos foram muito acolhedores, os professores, alunos e funcionários, não demorou muito para que eu me sentisse bem e confortável, a vergonha de ser a “menina nova que não tem uma das mãos” não mais existia, o diferencial era fora dele. Nas ruas a dificuldade era lidar com a discriminação, algo simples como ir à padaria se transformava em uma situação difícil pois eu via nitidamente as pessoas se esquivando para não se aproximarem, os olhares voltados a minha mão e os comentários que sempre me faziam sofrer.

Em 2006, o tema das olimpíadas escolares que seguia a campanha da fraternidade era sobre deficiência e naquele ano eu tive a oportunidade de lutar pelo que eu acreditava ser justo, a luta envolvia os meus direitos e de todas as outras pessoas com deficiência. Resolvi participar de todas as atividades possíveis, além das esportivas a olimpíada era cultural, sendo assim participei de uma grande abertura, apresentações de dança e uma peça de teatro. Essa olimpíada representou a mudança que fez a diferença na minha vida, eu não tive medo de me expor, de dizer quem eu era e de ter orgulho da minha deficiência. Naquele ano eu consegui mudar o olhar que muitas pessoas tinham em relação a deficiência, a minha turma me acolheu e me fez protagonista daquela história e principalmente da história da minha vida, eu me senti amada e não tive medo, eu não me senti mal em nenhum momento e eu consegui ver que a maior torcida e a melhor plateia são das pessoas que te amam pelo que você é.

A minha entrega foi tamanha em todos os esportes que eu terminei aquela semana no hospital com o ligamento do joelho rompido, no ano seguinte passei por uma cirurgia para corrigir o dano e a sensação era de dever cumprido, quando eu estava passando pelo processo de reabilitação na fisioterapia, lembrava do ginásio me aplaudindo de pé, dos meus amigos me abraçando, da emoção no teatro, dos desafios e vitórias da competição e de um troféu de destaque em uma modalidade esportiva. Toda dor que eu sentia recuperando o meu físico em questão de segundos se transformava na conclusão da melhor olimpíada que eu poderia ter, eu fiz o possível para voltar as quadras e devolver todo o apoio que recebi da minha turma.

Eu frequentava a fisioterapia três vezes por semana com duração de três horas com intensos exercícios, chorava de dor e chegava em casa querendo o colo da minha mãe, não foi fácil, mas foi uma etapa necessária no meu aprendizado, ali eu compreendi o poder da mente humana. Eu deixei as minhas emoções dominarem cada célula do meu corpo e a sensação de transcendência foi incrível, naquele momento eu vi que eu era capaz de ser e fazer tudo que eu desejasse, aprendi a enxergar muito além do que os olhos podem ver.

Com carinho,

Fee

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