Nós enchergamos o mundo assim porque precisamos para a nossa propria adaptação à vida, muitos ‘ali fora’ se importam, mas não notam como nós o quanto é difícil sair de casa a cada dia e viver. Nosso mundo pode ser repleto de momentos dificeis, de lágrimas e incertezas; mas nada no mundo é capaz de explicar a alegria de uma superação, e é por isso que nós não devemos nos esconder, e sim mostrar ao mundo o nosso mundo.
Bom, sou deficiente possuo má formação congenita no membro superior esquerdo, hoje posso dizer que minha vida foi e ainda é uma missão; para mim e para minha familia o dia-a-dia é uma superação, aprendi a vencer barreiras, e muitos muitos obstáculos. Mas antes de compreender de fato como o mundo é foram muitos caminhos, nem todos felizes mas todos cercados por muito amor e dedicação, o que não tenho duvidas quanto o papel da família! Não sei se posso ajudar muito nesse começo pois meus pais foram os que passaram pelas barreiras, eles que sofreram por preconceitos e olhares efusivos sobre mim, o que infelizmente voces devem passar também. Minha mãe disse que as pessoas falavam que eu era linda e que era uma pena eu ter nascido sem os dedos, ela ficava triste, nunca teve pena de mim nunca deixou ninguém me chamar de coitada. Posso afirmar que as crianças também são dificeis, algumas lembranças não são de exclusão mas como qualquer briga elas diziam “Você não tem mão” e eu lembro de responder uma vez “voce não tem cérebro” com sete anos já sabia lidar com o preconceito, porque? Simples, meus pais nunca me trataram com diferença, NUNCA, as vezes eu até me questionava, será que eles se importam? E hoje vejo o quanto eles estavam certos, deixem seus filhos derrubarem os brinquedos, aprenderem a andar de bicicleta, aprenderem a segurar várias coisas, eles conseguem, eu acredito e tenho certeza. Foi deixando cair muito prato no chão que aprendi a ter equilibrio, hoje consigo dirigir uma bicicleta apenas com o apoio da mão com agenesia. Nunca deixem que a deficiencia seja uma justificativa para qualquer erro ou beneficio, “Mãe eu nao vou fazer isso porque nao tenho mão”, tenta filha, voce vai conseguir, o apoio e a motivação auxiliam e muito. Logo no inicio assusta bastante, o choque é forte mas o amor sempre vence tudo. Lágrimas caem, a família comenta, as crianças não entendem, voces não entendem, mas tudo tem sentido, são crianças que devem ser amadas incondicionalmente, precisam de atenção mas nada muito exacerbado, deixem que descubram o mundo, que tenham interação social. O esporte abriu muitas portas para mim, antes tinha medo de falhar, com o tempo percebi que era ainda melhor que pessoas que se diziam normais, a natação é importante nesse inicio, brincadeiras com bola auxiliam no desenvolvimento motor e alegria, muita alegria. Não há como evitar olhares, hoje com quase dezenove anos ainda encaro o mundo, vejo o preconceito e não há como ignorar, mas há como vencer, e mostrar a todos que deficiencia não é sinonimo de incapacidade. Com a adolescencia vem um período dificil, onde os deficientes passam a enchergar o mundo tal como é, por vezes vão chegar da escola chorando e não vão falar o porque, pode ser por causa do preconceito ou não. Muitas vezes não queria conversar com ninguém, dar espaço também é importante, mas não deixe seu filho sozinho, ele precisa da sua força e do seu amor. É dificil ver um filho sofrer, mais ainda é ve-lo enfrentar o mundo, mas ele precisa disso para crescer, e cabe a você estar do lado dele, esteja sempre preparado para o pior, em alguns momentos lembro-me de colocar a culpa nos meus pais, de dizer o quanto queria uma mão ‘normal’ igual a outra, queria tanto ser igual as demais crianças, só queria ser normal, e aí minha mãe disse que eu não era normal, eu era ainda melhor que elas que eu só precisava acreditar em mim no meu potencial, e acreditei bastante, sem meus pais eu não seria metade do que sou, não conseguiria enfrentar cada dor do preconceito, cada olhar e cada palavra que entra e corroi. Hoje ainda tenho duvidas, ainda tenho inseguranças, e tenho certeza que voces e seus filhos ainda terão muitas, é um mundo novo, é diferente, é dificil mas é muito recompensador, porque na verdade eu, voces e seus filhos e filhas tem sorte, porque sabemos que quem está ao nosso lado realmente nos ama, nos da valor pelo que somos. Não precisa ter medo, eles são felizes, eles serão felizes, não é uma limitação física que priva uma criança de sorrir e seguir em frente, amigos incondicionais eles vão ter, namorados e namoradas, e acima de tudo, uma base, uma familia que será sempre lembrada por eles como força para todos os momentos. Isso aqui não é um texto de auto-ajuda, mas uma motivação, uma força maior para que voces compreendam que uma criança com deficiencia nada mais é do que uma criança capaz de ter uma experiencia de um mundo maravilhoso, cheio de desafios cheio de superação e de amor, não fuja, não padeça.
Seus filhos terão orgulho e sempre lembrarão do quanto seus pais foram fortes ao passar por cada etapa de sua vida com amor e dedicação, a gente espera do mundo e ele espera de nós, tenham paciencia que tudo vai dar certo.
Meu nome é Fernanda Rego Tolomei, tenho dezoito anos e moro no Rio de Janeiro, tenho má formação congenita no membro superior esquerdo e me considero uma das pessoas mais felizes do mundo; atualmente estou numa universidade e me dedicando para tirar a primeira habilitação, como deficiente física, como um ser humano.
Espero poder indicar caminhos, e apontar direções. Estou a disposição para qualquer dúvida, e meus pais com carinho podem estar presentes e contar um pouco de como é, esse mundo.
Força, e superação sempre.
Beijos, Fee!
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Partindo do principio que para tudo existe fila e que todos os hospitais publicos e postos de saúde são completamente degenerados esse governo não é realmente o ideal para uma estética correta de conduta; todavia, consegui ver um pouco de cidadania e respeito social atualmente. Fui ao Detran para dar entrada na primeira habilitação, ao aguardar uma atendente sentou no meu lado e perguntou o que eu precisava, disse que estava lá para entregar os documentos referentes a habilitação, ela então pegou os documentos, levou no balcão, esperou a entrega do protocolo, volto até a mim e educadamente disse que eles iriam entrar em contato em vinte dias e agradeceu a espera. Eu poderia presumir que a atendente estava em um bom dia, super feliz e contente, mas como o ser humano não está acostumado a tanta delicadeza no dia-a-dia, não me dei por convencida e passei a observar o comportamento dos outros atendentes, todos se dirigiam a pessoa sentada, tendo ela uma limitação física, ou não. O que comprovava a eficiencia do trabalho que estava sendo feito ali, pareceria uma coisa boba deixar esses atos por despercebidos, mas fiquei deveras emocionada e feliz por ver um pingo de eficiencia no sistema de um País que possui uma populacão tão feliz e trabalhadora mas que pela correria do dia-a-dia deixa de demonstrar atos generosos e atua como um padrão robótico de comportamento.
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Eis a pergunta que fiz durante a maior parte de minha existência, quando pequenos perguntar o porque de algo é normal, pois sempre tem alguém para dar uma resposta certa, mas quando não existe uma resposta ficamos ainda mais curiosos para saber, pois bem, não consigo recordar quantas vezes questionei minha deficiência, pensava em vários motivos, me culpava por nascer diferente de todos. Essas dúvidas e questionamentos surgiram na adolescência, pois quando pequena sempre achava estranho as crianças terem duas mãos, naquela época eu me via como a única certa, pra mim todas as outras pessoas eram diferentes; hoje vejo o quanto foi importante pensar daquela maneira. Quando criança não recordo de nenhum fato triste, ou preconceito sofrido, pelo contrário vejo minha infância como uma etapa memorável e muito feliz, uma vez eu li em uma das cartas que meus pais enviavam a inúmeros médicos, uma pergunta que fiz a minha mãe, eu havia perguntado se meus dedos iriam crescer, ela respondeu e disse que eu fiquei bem triste, mas logo esqueci. Fico pensando no papel da minha família, no papel de pais que amam incondicionalmente um filho e que lutam pelo seu bem estar, muita insegurança percorreu a mente deles assim que nasci, recorreram a médicos especialistas no exterior, procuraram mil soluções, terapia para auxiliar meu desenvolvimento, sou muito grata por tudo, mas não queria ter dado tanto trabalho assim. Na adolescência foi um período muito conturbado, pois comecei a entender o mundo que me cercava, comecei a ver que existia o preconceito e fui egoísta, só pensava em mim e não no que meus pais haviam feito por mim. Com 12 anos sai de um colégio e fui para outro, tive muito medo de não ser aceita, ia pro colégio de casaco para esconder minha deficiência, demorei muito para me acostumar com a idéia daquele novo ambiente, os olhares voltados para mim sempre incomodavam muito, até eu começar a praticar atividades físicas. O esporte mudou minha vida, com ele deixei de ter medo de me expor, aprendi a lutar e não desistir das dificuldades, com ele aprendi a maior lição que hoje tenho, de superação. Mas com 12 anos, ainda não pensava dessa maneira, aprendi ao longo dos anos, comecei a enxergar a sociedade de outro ponto de vista. No colégio todos foram muito acolhedores, os professores, alunos e funcionários, me sentia bem, a vergonha não mais existia, só que o diferencial era fora dele, na rua o que mais foi e posso dizer que ainda é um pouco difícil lidar com o preconceito. O preconceito é um mal que corrompe a sociedade, hoje são poucas pessoas que pensam por si, que não são individualistas e prepotentes, e é uma pena, porque uma coisa normal como ir a padaria tornou-se uma situação difícil, pessoas se esquivando para não se
aproximarem, olhares fuzilando minha deficiência, comentários que só fazem sofrer. Por muitas vezes chorei sozinha em casa, tive medo e muita insegurança, medo do futuro, e até hoje sinto, mas é bom ter um pouco de medo, significa que temos algo a perder. Hoje não aceito o preconceito, mas tive que aprender a lidar com situações desconfortantes, as atitudes magoam, os olhares machucam, não consigo ignorar, muito menos ficar quieta, diante tanta injustiça. Eu sempre quis lutar contra o preconceito, apoiar pessoas com as mesmas necessidades que tenho, dar o melhor de mim para mostrar ao mundo que a deficiência física nada é, diante a deficiência do coração. Nunca tive oportunidade de depositar toda minha força e energia por esse ideal, até 2006 chegar. Meu colégio era católico, e nele existe uma olimpíada, que o tema é sempre o da campanha da fraternidade, e naquele ano foi sobre deficiência. Naquele ano tive a oportunidade que sempre quis, pelo menos de poder lutar um pouco pelo que sou, e por tantos que sofrem preconceito injustamente, o ano da deficiência abriu a porta que eu precisava para lutar pelos meus direitos, pelo direito de tantos que precisam se superar a cada dia que passa, minha deficiência não é nada diante tantas que existem, me senti na obrigação de doar a minha vida e minha alma naquela olimpíada, participei da abertura, dança, teatro, tudo que eu podia participar eu participei, diante de todo o colégio, não tive medo de me expor, de dizer quem eu era e de ter orgulho da minha deficiência. Consegui mudar a cabeça de muita gente naquela semana, e principalmente a minha. Percebi que meus medos e desafios fizeram de mim quem eu sou, a deficiência que tenho moldou meu caráter e ali percebi o porque de tudo, vi que eu prefiro ser diferente do que ser normal, já que hoje em dia a normalidade anda com a desigualdade, o padrão estético de nada vale quando a alma for pequena e vazia. Aquela olimpíada valeu muito mais do que ganhar um jogo, ou o primeiro lugar, minha mente dominou meu corpo em todos os jogos, eu só pensava em todo o mal que existia, em todo o preconceito que eu sofri e que muitos deficientes sofreram, fazer um gol ou uma cesta ia muito além do que uma vitória em um jogo, mas na vida. Durante toda olimpíada eu me superei, não tive medo, não me senti mal, ali eu vi o apoio que tinha, vi que a maior torcida vem das pessoas que te amam pelo que você é, deixei o emocional dominar tudo que havia em mim, minha superação foi tamanha, que tive que operar meu joelho de tanto esforço que fiz naquela semana, mas valeu a pena, toda dor que sentia na fisioterapia valia o reconhecimento que tive, naquela olimpíada ganhei um troféu por ter me destacado nos jogos, mas por trás desse troféu veio a superação, pessoas passaram a ver o mundo diferente porque me viram vencer, e só de pensar que eu não fiz tanta coisa assim, queria poder fazer muito mais para mudar a sociedade, pra mudar a mente de tantas pessoas prepotentes e hipócritas, com o esporte eu aprendi que deficiência não é sinônimo de incapacidade, com o esporte deixei de sentir vergonha, e hoje sinto um orgulho tamanho da minha deficiência, um orgulho de mim, dos meus pais, e da sabedoria que adquiri.
Se existe um porquê para tudo isso eu ainda não sei, dúvidas ainda possuo, aprendi a ver o mundo de um outro jeito, aprendi a enxergar muito além do que os olhos podem ver, a dor de cada preconceito me fez crescer, o apoio que tive da minha família e de todos amigos foi muito importante, a cada gota de lágrima derramada eu tinha um porto seguro, sempre dizendo para não desistir, para ir em frente sem medo, sem vergonha, mas nem tudo foi fácil, ainda hoje vivo situações difíceis, sofri muito, chorei muito para entender minha existência, o motivo de ter nascido nesse jeito, as lagrimas sempre que algo caia da minha mão, as limitações que vida proporcionou a mim. Tenho certeza absoluta que a força que tenho a cada desafio veio da minha deficiência, da esperança que sinto, ainda choro, ainda me questiono, mas isso tudo não é em vão, será que eu teria sido uma pessoa diferente se fosse considerada normal aos demais? Essa resposta, eu não quero saber, hoje tenho tudo que sempre quis, não digo bens matérias, digo da mente, hoje vejo de forma mais clara porque fui destinada a ser assim, a ser uma pessoa esforçada, antes eu reclamava dessa limitação, não entendia, gritava com meus pais, chorava ao sofrer um preconceito, hoje posso até ficar triste, posso não compreender o motivo de tanta injustiça, ficar com raiva ou até sofrer, mas o que eu aprendi com a vida, vale qualquer sofrimento. Hoje consigo provar que sou capaz, nascer assim foi uma benção, porque eu sei que quem esta do meu lado, é porque me ama, sinto vontade de gritar ao mundo para que cessem o preconceito e a prepotência que corrói a mente de tantos, custa viver em harmonia? Custa ser feliz? Sou muito grata por ter nascido assim, posso não ter uma mão, mas meu coração é grande, cheio de vida, cheio de amor, aprendi a ter coragem, a lutar por cada ideal, e a força que aqui tenho é capaz de mover montanhas. Só eu sei o quanto precisei me superar para mostrar que ser deficiente é normal, não preciso provar a ninguém, mas cada esforço que faço, consigo responder minhas duvidas, hoje meus medos são menores. Nasci me superando, batalhando para viver, lutando contra injustiça que habita em todo lugar do mundo, sei que não posso mudar o mundo, mas mostro um pouco a quem vive perto de mim, existe muita coisa além do que a gente possa imaginar. Me questiono muito, e não preciso emocionar todos, muitos não compreendem meu orgulho em relação a minha deficiência. Nunca vou ter uma resposta, aprendi e me virar sozinha, a tratar com respeito e igualdade todo ser humano, no esporte encontrei uma forma de elevar minha auto-estima e provar que não há limites quando a força de vontade é maior. A superação é a marca da minha vida, sou movida a desafios, eu posso cair de vez em quando, chorar, sofrer, mas a força que adquiri ao longo desses dezoito anos de vida, moldou meu caráter, meus princípios orientadores de vida foram formados a partir da minha deficiência, tenho muito orgulho de ser quem eu sou, poderia citar inúmeras situações que vivi ao longo da minha vida, foram tantas perguntas, tantos mutáveis pensamentos.
A constante interrogação me levou a respostas que nunca imaginei ter, a busca de encontrar respostas da limitação que possuo quanto a minha existência, me fez perceber o verdadeiro motivo, a resposta para tudo, é continuar me questionando, pois nas mais eloqüentes perguntas descobri o meu verdadeiro “eu”. É como um ciclo sem fim, e a cada dia que passa outras perguntas passam em minha cabeça, e esse infindável movimento de questionamentos é o fogo que mantem aceso a chama do meu saber. Aprendi muito com a minha limitação física, a sabedoria que hoje tenho, serve de entusiasmo a cada situação, vontade de viver, de entender o motivo da existência e de querer aprender mais e mais. Já vivi tantas emoções, muitas dificuldades e a cada dia que passa sinto que minha vida esta só começando.
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