Eis a pergunta que fiz durante a maior parte de minha existência, quando pequenos perguntar o porque de algo é normal, pois sempre tem alguém para dar uma resposta certa, mas quando não existe uma resposta ficamos ainda mais curiosos para saber, pois bem, não consigo recordar quantas vezes questionei minha deficiência, pensava em vários motivos, me culpava por nascer diferente de todos. Essas dúvidas e questionamentos surgiram na adolescência, pois quando pequena sempre achava estranho as crianças terem duas mãos, naquela época eu me via como a única certa, pra mim todas as outras pessoas eram diferentes; hoje vejo o quanto foi importante pensar daquela maneira. Quando criança não recordo de nenhum fato triste, ou preconceito sofrido, pelo contrário vejo minha infância como uma etapa memorável e muito feliz, uma vez eu li em uma das cartas que meus pais enviavam a inúmeros médicos, uma pergunta que fiz a minha mãe, eu havia perguntado se meus dedos iriam crescer, ela respondeu e disse que eu fiquei bem triste, mas logo esqueci. Fico pensando no papel da minha família, no papel de pais que amam incondicionalmente um filho e que lutam pelo seu bem estar, muita insegurança percorreu a mente deles assim que nasci, recorreram a médicos especialistas no exterior, procuraram mil soluções, terapia para auxiliar meu desenvolvimento, sou muito grata por tudo, mas não queria ter dado tanto trabalho assim. Na adolescência foi um período muito conturbado, pois comecei a entender o mundo que me cercava, comecei a ver que existia o preconceito e fui egoísta, só pensava em mim e não no que meus pais haviam feito por mim. Com 12 anos sai de um colégio e fui para outro, tive muito medo de não ser aceita, ia pro colégio de casaco para esconder minha deficiência, demorei muito para me acostumar com a idéia daquele novo ambiente, os olhares voltados para mim sempre incomodavam muito, até eu começar a praticar atividades físicas. O esporte mudou minha vida, com ele deixei de ter medo de me expor, aprendi a lutar e não desistir das dificuldades, com ele aprendi a maior lição que hoje tenho, de superação. Mas com 12 anos, ainda não pensava dessa maneira, aprendi ao longo dos anos, comecei a enxergar a sociedade de outro ponto de vista. No colégio todos foram muito acolhedores, os professores, alunos e funcionários, me sentia bem, a vergonha não mais existia, só que o diferencial era fora dele, na rua o que mais foi e posso dizer que ainda é um pouco difícil lidar com o preconceito. O preconceito é um mal que corrompe a sociedade, hoje são poucas pessoas que pensam por si, que não são individualistas e prepotentes, e é uma pena, porque uma coisa normal como ir a padaria tornou-se uma situação difícil, pessoas se esquivando para não se
aproximarem, olhares fuzilando minha deficiência, comentários que só fazem sofrer. Por muitas vezes chorei sozinha em casa, tive medo e muita insegurança, medo do futuro, e até hoje sinto, mas é bom ter um pouco de medo, significa que temos algo a perder. Hoje não aceito o preconceito, mas tive que aprender a lidar com situações desconfortantes, as atitudes magoam, os olhares machucam, não consigo ignorar, muito menos ficar quieta, diante tanta injustiça. Eu sempre quis lutar contra o preconceito, apoiar pessoas com as mesmas necessidades que tenho, dar o melhor de mim para mostrar ao mundo que a deficiência física nada é, diante a deficiência do coração. Nunca tive oportunidade de depositar toda minha força e energia por esse ideal, até 2006 chegar. Meu colégio era católico, e nele existe uma olimpíada, que o tema é sempre o da campanha da fraternidade, e naquele ano foi sobre deficiência. Naquele ano tive a oportunidade que sempre quis, pelo menos de poder lutar um pouco pelo que sou, e por tantos que sofrem preconceito injustamente, o ano da deficiência abriu a porta que eu precisava para lutar pelos meus direitos, pelo direito de tantos que precisam se superar a cada dia que passa, minha deficiência não é nada diante tantas que existem, me senti na obrigação de doar a minha vida e minha alma naquela olimpíada, participei da abertura, dança, teatro, tudo que eu podia participar eu participei, diante de todo o colégio, não tive medo de me expor, de dizer quem eu era e de ter orgulho da minha deficiência. Consegui mudar a cabeça de muita gente naquela semana, e principalmente a minha. Percebi que meus medos e desafios fizeram de mim quem eu sou, a deficiência que tenho moldou meu caráter e ali percebi o porque de tudo, vi que eu prefiro ser diferente do que ser normal, já que hoje em dia a normalidade anda com a desigualdade, o padrão estético de nada vale quando a alma for pequena e vazia. Aquela olimpíada valeu muito mais do que ganhar um jogo, ou o primeiro lugar, minha mente dominou meu corpo em todos os jogos, eu só pensava em todo o mal que existia, em todo o preconceito que eu sofri e que muitos deficientes sofreram, fazer um gol ou uma cesta ia muito além do que uma vitória em um jogo, mas na vida. Durante toda olimpíada eu me superei, não tive medo, não me senti mal, ali eu vi o apoio que tinha, vi que a maior torcida vem das pessoas que te amam pelo que você é, deixei o emocional dominar tudo que havia em mim, minha superação foi tamanha, que tive que operar meu joelho de tanto esforço que fiz naquela semana, mas valeu a pena, toda dor que sentia na fisioterapia valia o reconhecimento que tive, naquela olimpíada ganhei um troféu por ter me destacado nos jogos, mas por trás desse troféu veio a superação, pessoas passaram a ver o mundo diferente porque me viram vencer, e só de pensar que eu não fiz tanta coisa assim, queria poder fazer muito mais para mudar a sociedade, pra mudar a mente de tantas pessoas prepotentes e hipócritas, com o esporte eu aprendi que deficiência não é sinônimo de incapacidade, com o esporte deixei de sentir vergonha, e hoje sinto um orgulho tamanho da minha deficiência, um orgulho de mim, dos meus pais, e da sabedoria que adquiri.
Se existe um porquê para tudo isso eu ainda não sei, dúvidas ainda possuo, aprendi a ver o mundo de um outro jeito, aprendi a enxergar muito além do que os olhos podem ver, a dor de cada preconceito me fez crescer, o apoio que tive da minha família e de todos amigos foi muito importante, a cada gota de lágrima derramada eu tinha um porto seguro, sempre dizendo para não desistir, para ir em frente sem medo, sem vergonha, mas nem tudo foi fácil, ainda hoje vivo situações difíceis, sofri muito, chorei muito para entender minha existência, o motivo de ter nascido nesse jeito, as lagrimas sempre que algo caia da minha mão, as limitações que vida proporcionou a mim. Tenho certeza absoluta que a força que tenho a cada desafio veio da minha deficiência, da esperança que sinto, ainda choro, ainda me questiono, mas isso tudo não é em vão, será que eu teria sido uma pessoa diferente se fosse considerada normal aos demais? Essa resposta, eu não quero saber, hoje tenho tudo que sempre quis, não digo bens matérias, digo da mente, hoje vejo de forma mais clara porque fui destinada a ser assim, a ser uma pessoa esforçada, antes eu reclamava dessa limitação, não entendia, gritava com meus pais, chorava ao sofrer um preconceito, hoje posso até ficar triste, posso não compreender o motivo de tanta injustiça, ficar com raiva ou até sofrer, mas o que eu aprendi com a vida, vale qualquer sofrimento. Hoje consigo provar que sou capaz, nascer assim foi uma benção, porque eu sei que quem esta do meu lado, é porque me ama, sinto vontade de gritar ao mundo para que cessem o preconceito e a prepotência que corrói a mente de tantos, custa viver em harmonia? Custa ser feliz? Sou muito grata por ter nascido assim, posso não ter uma mão, mas meu coração é grande, cheio de vida, cheio de amor, aprendi a ter coragem, a lutar por cada ideal, e a força que aqui tenho é capaz de mover montanhas. Só eu sei o quanto precisei me superar para mostrar que ser deficiente é normal, não preciso provar a ninguém, mas cada esforço que faço, consigo responder minhas duvidas, hoje meus medos são menores. Nasci me superando, batalhando para viver, lutando contra injustiça que habita em todo lugar do mundo, sei que não posso mudar o mundo, mas mostro um pouco a quem vive perto de mim, existe muita coisa além do que a gente possa imaginar. Me questiono muito, e não preciso emocionar todos, muitos não compreendem meu orgulho em relação a minha deficiência. Nunca vou ter uma resposta, aprendi e me virar sozinha, a tratar com respeito e igualdade todo ser humano, no esporte encontrei uma forma de elevar minha auto-estima e provar que não há limites quando a força de vontade é maior. A superação é a marca da minha vida, sou movida a desafios, eu posso cair de vez em quando, chorar, sofrer, mas a força que adquiri ao longo desses dezoito anos de vida, moldou meu caráter, meus princípios orientadores de vida foram formados a partir da minha deficiência, tenho muito orgulho de ser quem eu sou, poderia citar inúmeras situações que vivi ao longo da minha vida, foram tantas perguntas, tantos mutáveis pensamentos.
A constante interrogação me levou a respostas que nunca imaginei ter, a busca de encontrar respostas da limitação que possuo quanto a minha existência, me fez perceber o verdadeiro motivo, a resposta para tudo, é continuar me questionando, pois nas mais eloqüentes perguntas descobri o meu verdadeiro “eu”. É como um ciclo sem fim, e a cada dia que passa outras perguntas passam em minha cabeça, e esse infindável movimento de questionamentos é o fogo que mantem aceso a chama do meu saber. Aprendi muito com a minha limitação física, a sabedoria que hoje tenho, serve de entusiasmo a cada situação, vontade de viver, de entender o motivo da existência e de querer aprender mais e mais. Já vivi tantas emoções, muitas dificuldades e a cada dia que passa sinto que minha vida esta só começando.